Numa altura da minha existência em que paro para reflectir sobre momentos passados, as escolhas irreversíveis, o presente fortuito e inconstante; surpreendo-me com as palavras de Isabel Allende no seu último livro A Soma dos Dias. Já falei aqui no blog, por duas vezes, sobre Deus e religião; num dos posts escrevi o que me vai na alma sobre o tema e noutro transcrevi umas palavras do escritor José luís Peixoto. Mas ao deparar-me com as palavras de Isabel Allende, que reproduzo neste post, não tive a menor dúvida que estas descrevem surpreendentemente qualquer reflexão que tenha feito acerca de Deus ou religião, superando também, na minha opinião, qualquer outra citação sobre o tema. Os escritores têm essa sorte: de possuir o dom de transcrever os pensamentos para o papel de uma forma soberba, que eu (tendo esta mania de escrever uns textos mediocres), só consegueria faze-lo em sonhos. Não resisti em transcrever também uma das mais eloquentes definições de Vida que algum dia li, retirada do mesmo livro. É caso para dizer que é altura de fazer contas à soma dos meus dias e à evidente falta de sorte que os assombra.
“Aqui, neste mundo que deixaste para trás, Deus foi sequestrado pelos homens. Criaram umas religiões disparatadas, que não percebo como sobreviveram séculos a fio e continuam acrescer. São implacáveis, pregam o amor e a caridade e cometem atrocidades para as impor. Os senhores importantes que propagam estas religiões, julgam, castigam, franzem o sobrolho perante a alegria, o prazer, a curiosidade e a imaginação. Muitas mulheres da minha geração tiveram que inventar uma espiritualidade que se adapta-se a elas, e se tivesse vivido mais talvez tivesse feito o mesmo, porque os deuses do patriarcado definitivamente não nos convêm: fazer-nos pagar pelas tentações e pelos pecados dos homens. Porque nos temem tanto? Agrada-me a ideia de uma divindade abrangente e maternal, ligada à natureza, sinónimo de vida, um processo eterno de renovação e evolução. A minha deusa é um oceano e nós gotas de água, mas o oceano existe pelas gotas que o formam.”
” A vida não é uma fotografia, em que preparamos as coisas para que fiquem bem e em seguida fixamos uma imagem para a posterioridade; é um processo sujo, desordenado, rápido, cheio de imprevistos. A única coisa certa é que tudo muda.”





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